E se a sua próxima embalagem fosse feita de pele de tomate?
Pense num mundo onde o desperdício é o ingrediente secreto para criar novas embalagens. Pense, também, que essas mesmas embalagens, já no final de vida, se podem dissolver, sem deixar rasto…. Soa a ficção, mas é pura realidade.
Todas as embalagens descartadas inadequadamente, ou seja, que não são encaminhadas para reciclagem, contribuem para o agravamento da ameaça ambiental. No contexto atual, o futuro destes resíduos deve ser mais ambicioso e a solução passa, cada vez mais, pela aposta na circularidade, ou seja, num sistema de zero desperdício.
A ideia é simples: em vez de se resumirem à reciclagem, no final do ciclo, as embalagens do futuro devem ser concebidas para viver uma vida dupla – nascerem do desperdício, a partir de subprodutos, para depois voltarem à natureza, onde se desintegram na totalidade.
A combinação destes dois vetores – produção a partir de desperdício e retorno à natureza – pode ser a chave para eliminar o impacto ambiental negativo de parte das embalagens em circulação.
Como podemos tornar este conceito realidade?
O projeto “Produção de Bioplásticos de Ésteres Naturais para Embalagens Biodegradáveis”, desenvolvido pelo iBET (Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica) e pelo Instituto Superior de Agronomia, pode ser a solução. Utiliza resíduos agroindustriais para criar opções sustentáveis à base da cutina, um componente natural da pele do tomate, com o objetivo de desenvolver bioplásticos inovadores que servirão de base para as embalagens e revestimentos do futuro.



Um adeus gradual ao plástico convencional
De acordo com um dos investigadores responsáveis pelo estudo, Vítor Alves, “a cutina não é uma invenção nova, mas sim um poliéster natural” que atua como uma barreira contra a desidratação e que pode ser encontrada nas cascas de frutas e legumes, como o tomate. A sua estrutura molecular, rica em ácidos gordos, confere-lhe a capacidade de repelir a água, uma característica fundamental para a aplicação em embalagens que precisam de ser resistentes à humidade.
A grande inovação reside no facto de a cutina poder ser extraída do repiso de tomate – as peles e sementes que sobram em grandes quantidades após a produção de concentrado e que, habitualmente, são descartadas. “O aproveitamento deste repiso não só resolve um problema de resíduos, como transforma um subproduto sem valor num novo recurso, reforçando os princípios da economia circular”, acrescenta Carla Brazinha, investigadora principal do estudo.
A magia acontece
O projeto transforma o repiso do tomate em embalagens sustentáveis através de um processo limpo. Inicia-se com a fase de extração e purificação, em que as peles são processadas para isolar a cutina, utilizando “solventes verdes” (substâncias seguras e renováveis). Segue-se a criação das películas, momento em que a cutina purificada é combinada com outros materiais naturais para formar bioplásticos compósitos que são moldados para criar películas finas e resistentes.
A sua transformação pode ir por dois caminhos, prensar a mistura de forma a obter uma película sólida, ou dissolver a cutina e aplicar esse líquido em revestimento de filme para embalagens.
Independentemente da opção escolhida, no final realizam-se testes de qualidade para avaliar o material quanto às suas propriedades mecânicas, de barreira (proteção contra humidade), citotoxicidade (segurança) e bioatividade (capacidade de se degradar).
Impacto e aplicação
A substituição dos plásticos convencionais por estas películas à base de cutina representa ganhos ambientais significativos: são biodegradáveis, não geram as temidas partículas de microplástico e não libertam aditivos potencialmente tóxicos. Além disso, o projeto está alinhado com a química verde, uma vez que utiliza solventes de origem renovável e baixa toxicidade para purificar os extratos da cutina. O processo de produção fica, assim, mais seguro, menos poluente e energeticamente mais eficiente.
As aplicações práticas destas películas são promissoras, sobretudo em embalagens de dose única que requerem proteção e resistência à humidade. Pode-se pensar em embalagens individuais para bolachas, frutos secos ou molhos no setor alimentar. Na agricultura, têm potencial para embalar sementes, adubos ou protetores de raízes que podem ser inseridos diretamente no solo. Em outras áreas, estas películas poderão ser usadas para embalar pequenas peças no setor eletrónico ou do mobiliário.
Desafios e próximos passos
Apesar da produção em larga escala ainda enfrentar desafios como a escalabilidade, espera-se que as aplicações de nicho ou de menor exigência técnica sejam as primeiras a serem implementadas, impulsionadas por empresas e marcas com um forte compromisso ambiental.
Ao transformar resíduos agroindustriais em bioplásticos, a investigação contribui para acelerar a transição para uma economia circular mais sustentável, com implicações diretas na redução do desperdício, da dependência de fontes fósseis e do impacto ambiental. Uma filosofia em linha com a da Sociedade Ponto Verde que, ao apoiar o projeto, permitiu alavancar toda a linha de investigação.
Projeto apoiado e cofinanciado pela Sociedade Ponto Verde no âmbito do seu Programa de I&D
